Av Sete Setembro 108

Av. Sete de Setembro, nº 108, o local onde nascera Raul Seixas

Eu sabia que um dia esse dia iria chegar, e eis que chegou: esmiuçar a Av. Sete de Setembro à procura do número 108, numeração essa do ano de 1945. Foi nesse endereço que nascera, 77 anos atrás, um grande gênio baiano, Raul dos Santos Seixas. Sabia que não seria tarefa nada fácil e até tentei, antes, um norte no Google Maps, mas não existe ordem nas atuais numerações da avenida. Números altos e fora de ordem só lançaram um balde de água fria. O pior foi não ter a mínima noção se, pelo menos, a numeração crescente iniciava de cima ou de baixo. E assim, no escuro, com a cara, coragem e disposição, iniciei a busca por cima, pela primeira quadra, logo após o Campo Grande.

O início da avenida já começa assim, com as numerações nas alturas

A numeração das casas comerciais já começa alta, o que indicaria que ela iria decrescer, mas ao contrário, ela subia ainda mais ou não tinha sequência lógica. Um caos. Até que a primeira luz se acendeu: me deparei com um belo e grande prédio antigo de nº 261. Fiquei tão empolgada que nem deu para apurar o que funcionava nesse prédio (ficou para depois essa). Estava claro, agora, que o foco precisava ser a numeração dos poucos prédios antigos da rua; os quais, na sua quase totalidade estão, tristemente, escondidos e descaracterizados pelas desordenadas casas comerciais.

Seguindo o caminho, um outro norte apareceu: o Ed. Oxalufã (1963), com duas numerações na fachada (183, a velha e 846, a nova) e então, as coisas foram clareando: antigamente, o lado esquerdo da avenida, era ímpar, e, o lado direito, par. E a numeração decrescia rumo à Praça Castro Alves. Quem me ajudou nessa informação foi o querido Sr. Raimundo, porteiro do prédio e que, inclusive, olha só a sincronicidade, me falou que um tio de Raul, Marivaldo Seixas, tinha um apartamento nesse prédio.

Agora, do nº 183 para o nº 108, era preciso atravessar a rua e descer um pouco mais. Nesse ínterim, a vista do antigo Colégio das Mercês, com o número novo (1105) na porta, foi uma pedrinha de gelo e descubro o Teatro Raul Seixas nesta quadra. “Que luz é essa que vem vindo lá do céu”? Era só preciso seguir na busca.

E, do nada, avisto os números 104/689 num antigo casarão. Era clara a adequação entre os tempos antigos e atuais nessas duas numerações. O intrigante era que o casarão anterior tinha o número 102, mas com o estilo de placa da numeração nova. Contudo, essa numeração antiga preservada (102) não estaria ali à toa; era um grande indicativo. E não havia dúvida quanto à localização do nº 104.

Perceba o nº 102, na parte superior do casarão à esquerda (logo acima do toldo azul)

Para achar o nº 108, era só seguir a sequência contínua ou pular de dois em dois. Seguindo essas duas lógicas, estavam lá um dos dois casarões que seriam, inevitavelmente, o antigo nº 108. Ou seria onde está instalada, hoje, a Modas Chephy ou a Reis Eletro. É preciso deixar registrado que não foi possível ver, a olho nu, qualquer numeração nesses dois prédios porque eles, lamentavelmente, na parte de baixo, já foram completamente modificados e o pouco que resta da parte frontal superior, está coberta e bem descaracterizada. O próximo passo seria conversar com os atuais proprietários das lojas.

Com a intuição raulseixística tinindo, a certeza do número 104 e a, não à toa, numeração 102 no casarão colado ao 104; tudo indicaria que a numeração antiga da rua pulava de dois em dois e eu já fui sentindo que o número 108 seria na Modas Chephy. Ao conversar com o proprietário, o receptivo e gentil, Sr. Edson, ele nos falou que já tinha ouvido falar sobre essa história e nos disse que há uns 15, 20 anos atrás, alguém que estava pesquisando sobre a antiga moradia de Raul, esteve em sua loja e confirmou que seria lá, de fato, o local do seu nascimento. O Sr. Edson também nos falou que já tinha ouvido outra história que naquele local já funcionara um antigo restaurante espanhol/português. Essa informação do restaurante foi divulgada pelo próprio Raul em alguns de seus escritos: “Nasci baiano mesmo, na av. 7 de setembro, número 108, que é a avenida principal de Salvador. Hoje estão comendo bacalhau”…brincaria Raul, mais tarde, referindo-se ao Restaurante Português, que funciona hoje, na casa em que nasceu. (Fonte: http://revoluseixismo.blogspot.com/2016/10/prefacio-semiotica.html).

Se a numeração antiga pulava de dois em dois, não há erro: foi nessa casa que Raul Seixas nasceu (atual Modas Chephy)

O coração pulsava acelerado, a emoção já tomava conta de mim, e eu não conseguia agradecer ao Sr. Edson tamanha educação e boa vontade nessa conversa tão importante. Saí de lá feliz e emocionada por, particularmente, identificar o local, a casa que Raulzito nascera. Voltei ao Edf. Oxalufã e falei novamente com o Sr. Raimundo que eu havia identificado o local e ele me falou que uma antiga moradora, Dona Darlene, tinha informações para me dar. Dona Darlene me enviou um link de um blog que indicava que o local em questão seria onde hoje está instalado o Restaurante Grão de Bico. Não há nessa postagem qualquer pesquisa ou maior fundamentação, apenas uma foto do casarão, afirmando que ele seria o número 108. Desci novamente a rua para conferir a lógica dessa informação, mas não tem mesmo qualquer evidência concreta. Partindo do casarão nº 104, pela numeração contínua, esse casarão teria a antiga numeração nº 110 ou contando de dois em dois (a mais provável), seria a provável numeração 116 ou 118, visto que no meio está um grande prédio do Banco do Brasil, que não sabemos se foi instalado no terreno de um ou de dois antigos casarões.

Não há lógica o nº 108 ser no casarão amarelo, após o Banco do Brasil

Para desencargo de consciência, fui ao Restaurante Grão de Bico e, olha só, lá encontrei o cordel “O encontro de Raul Seixas com Zé Limeira no avarandado da lua”. Conversei com o proprietário, um senhor que me disse que “nunca tinha ouvido falar sobre essa história”, “que não sabia a numeração antiga desse prédio”, mas me confirmou que, de fato, “havia um restaurante português alguns prédios a baixo”. Foi bingo demais! Aí, tive ainda mais certeza que o número 108 era onde hoje está instalada a Modas Chephy. A felicidade que voltei para casa era indescritível.

Alguns dias depois, satisfeita, mas ainda querendo mais provas, voltei à Av. Sete para ir à loja que poderia ser o número 108, se a sequência da rua fosse contínua. Esse casarão seria onde hoje está a loja Reis Eletro. O gerente da loja não soube informar nada sobre a numeração antiga desse prédio, nem nunca tinha ouvido falar nada sobre essa história.

E, se ali eu já estava, não aguentei e retornei à Modas Chephy para mais um tiquinho de prosa com o Sr. Edson e com outros interesses. Se foi ali que Raul Seixas nasceu e morou, eu pre-ci-sa-va sentir, conhecer melhor aquela casa/casarão, para além da loja que totalmente descaracterizou a sua parte frontal inferior. Não apenas por mim, mas também para a história desse grande artista, para a história de Salvador, bem como mostrar esse lugar tão valioso aos seus fãs. E então, o Sr. Edson me permitiu adentrar a parte de trás da loja, às quais instalações permaneciam como eram antigamente.

Não cabe a mim discorrer sobre o estado atual do local. Eu só queria sentir aquele lugar, aquelas instalações, aquele fundo de casa original. E assim, não deixei que nada antigo escapasse aos meus olhos: as paredes, as portas, os compartimentos. Me concentrei naquela família que ali morava, setenta e sete anos atrás. Eu conheci a Dona Eugênia, mãe de Raul, em 2001, no seu apartamento em Ondina, pouco antes do seu falecimento. Imaginei ela, seu Raul Varella e Raulzito ali… o local onde nascera um dos maiores artistas do Brasil. O pai, o maior nome do rock brasileiro. Que a cada ano que passa, cresce o culto à sua lendária obra e persona. Que após trinta e três anos de sua morte, já foram publicados mais de trinta e dois livros sobre ele (entre biografias, ensaios, teses de mestrado), várias peças de teatro, inúmeros discos oficiais e piratas, um filme, “O Início, o Fim e o Meio” e até um livro espírita, “Um Roqueiro no Além”.

Após sair do local, foi inevitável não lembrar da minha ida à Liverpool, às casas onde nasceram John Lennon, Paul McCartney, Ringo Starr e George Harrison. As casas onde John Lennon e Paul McCartney passaram a infância foram restauradas pelo The National Trust, organização responsável pela preservação do patrimônio histórico do Reino Unido e não podem sofrer quaisquer alterações sem autorização oficial. A visita guiada à casa de Paul McCartney é bastante restrita e intermediada por esse órgão oficial.

É muito triste constatar como em Salvador, no Brasil, locais tão importantes relacionados a nomes importantes se perdem por completo em tão poucos anos. Relíquias históricas, memórias que são apagadas, destruídas. Como não seria, hoje, o local que Raul Seixas nasceu se existisse como antes…? Quantos admiradores viriam a Salvador apenas para visitar essa casa? Quantas pessoas não sonhariam com a Av. Sete de Setembro, sendo a nossa Penny Lane ou a Forthlin Road? Um ouro que não seria de tolo.

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P.S.: Muito agradecida, prometi ao Sr. Edson voltar à sua loja com mais tempo, para, desta vez, comprar alguma roupa. Ele também prometeu me mostrar o compartimento superior, quando tivesse outra pessoa para ficar no caixa e o Sol estivesse mais forte, visto que lá em cima não havia energia.

P.S.: Este post foi o último de uma série de posts que fizemos no Instagram sobre Salvador e São Paulo. Na foto abaixo está o Edf. Aliança, na Rui Frei Caneca, em São Paulo, o local onde Raul Seixas foi encontrado morto em 1989.

Edf Alianca Raul Seixas

Toca Raul! ♥

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2 Comentários
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Anderson Medeiros
Anderson Medeiros
1 mês atrás

Muito legal essa reportagem! incrivel mesmo! muito bom conhecer um pouco da historia do Raulzito e de Salvador. Parabéns ao trabalho!

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