Nizan Guanaes

Carta Aberta a Nizan Guanaes

Carta Aberta ao publicitário baiano Nizan Guanaes, referente ao texto “Nizan, volte pra Bahia” divulgado no WhatsApp e publicado no Correio 24 Horas.

Carta Aberta a Nizan Guanaes

Nizan, não é preciso ser um publicitário para ter você como referência. Basta sabermos que, em qualquer panteão de baianos ilustres que elevam a Bahia a outro patamar como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Raul Seixas, Jorge Amado e tantos outros, o seu nome seguramente estará lá.

Uma pessoa que, inspirado no propósito de We are the world”, que reuniu estrelas da música mundial com o intuito de arrecadar fundos para a luta contra a pobreza na África, e compôs “We are the world of carnaval”, que se tornou um hino do Carnaval da Bahia, reunindo estrelas da música baiana num clipe lendário para a campanha de 1988 das Obras Sociais Irmã Dulce, já merece um honroso lugar de destaque.

É impossível falar de você e não lembrar outros feitos memoráveis. Quando, somente com palavras pode-se levantar ou derrubar uma “pessoa”, no caso do comercial “Hitler”, em 1988, considerado como um dos 100 melhores de todos os tempos no mundo. Como dois simples “alimentos” podem vender tanto e gerar um jingle presente até hoje no subconsciente das pessoas (eu, até hoje, escolho comer pipoca com guaraná). E qual brasileiro não tem uma memória emotiva permeada pelos “mamíferos da Parmalat” e o seu fofo “…tomou?”.

Para além dos prêmios recebidos e da sua atuação em diversas organizações internacionais, é igualmente admirável sua confiança na própria capacidade, ousadia, inteligência excepcional, seu tino empresarial e capacidade de empreender, de estar sempre à frente do seu tempo. Igualmente inspirador é a sua constante ressignificação pessoal, como ter se preparado para a Maratona de Nova York 2018 (estava lá no dia, queria te parabenizar mas não te vi), ter disposição para, no alto dos seus jovens 60 anos, voltar para faculdade e querer se preparar para o Ironman. Um baiano que mostra e prova o contrário da nossa malfadada fama, que baiano é preguiçoso.

Uma coisa é certa: você, Nizan, tem muito a nos ensinar e tudo que você fala é preciso, no mínimo, estarmos atentos. Como baianos, temos a sorte de ter um conterrâneo com uma voz poderosa e eloquente como a sua, olhando pras suas origens e apontando caminhos para a nossa Bahia. Volte pra Bahia, sim, porque a Bahia tá viva, ainda aqui!

O New York Times jogou luz ao que os baianos mais sensíveis já sabem, já veem, já sentem. Nosso Centro Histórico, a “Cidade Velha” que você cita, não deve nada a nenhuma “Old Town” espalhada por esse mundo afora. Num espaço lindamente marcado por um enorme frontispício, que poeticamente divide a Cidade da Bahia em “Cidade Alta” e “Cidade Baixa”, abrigamos uma riqueza histórica ímpar, uma diversidade cultural que vai além das fronteiras da África e de Portugal, um acervo arquitetônico de estilos mais variados e fusões de toda ordem. Toda essa conjuntura à margem da deslumbrante Baía de Todos os Santos e do Porto de Salvador.

Salvador já é a cidade global que ela é. Tudo o que nos diferencia no Brasil e no mundo já está aqui. O Pelourinho é a nossa Praga! Não temos um castelo similar ao Castelo de Praga, mas temos o imponente Lar Franciscano Santa Izabel, recentemente reformado. A Igreja Nossa Senhora de Týn é a nossa Catedral Basílica Primacial. O Rio Moldava é a nossa Baía de Todos os Santos. A vibrante Praça da Cidade Velha é o vibrante, ao seu modo, Terreiro de Jesus. Se Praga sobreviveu às guerras, à ocupação nazista e aos austeros anos do comunismo, nós sobrevivemos à escravidão e às revoltas do Brasil Colônia. A arquitetura e o estilo romântico da Art Nouveau se contrapõem ao nosso estilo eclético, com influências renascentistas, maneiristas, barrocas, neoclássicas e rococós. O Mucha deles é o nosso Carybé. Franz Kafka, o nosso Jorge Amado.

Assim como Puerto Madero, em Buenos Aires, o Porto de Salvador está situado a poucos metros da sede do governo. Puerto Madero é um dos projetos de renovação urbana mais bem sucedidos do mundo. Assim como lá, temos tudo para termos aqui prédios e armazéns reformados, com o melhor da gastronomia baiana. O que é o Rio de la Plata frente ao pôr do sol e aos inúmeros cruzeiros que chegam pela Baía de Todos os Santos? Para cada alfajor, temos um acarajé. Para o leve e sofisticado tango, a batida indelével dos tambores africanos. O Caminito deles é uma vila do nosso Pelourinho.

Ah.. e o quanto em comum existe entre Salvador e a nossa prima-irmã, Lisboa? O Elevador de Santa Justa é o nosso Elevador Lacerda; principais pontos turísticos das duas cidades, ligam a cidade baixa a um bairro alto, encravado em meio a casarões antigos. Suas vistas também se completam: do lado luso, o Rio Tejo, a Baixa de Lisboa e a Igreja do Convento do Carmo. Do lado de cá, a Baía de Todos os Santos, o bairro do Comércio e a Igreja da Conceição da Praia.

Assim como a Torre Eiffel em Paris, Salvador possui o seu maior símbolo: o Elevador Lacerda. Cada monumento com seu propósito, estética e importância para a identidade de cada cidade, onde não existe melhor ou pior. Nossas fitinhas do Bonfim são os seus (já ultrapassados) cadeados do amor. O relógio da Torre do Big Ben de Londres é o nosso Relógio de São Pedro.

Se em Roma existem mais de novecentas igrejas, Salvador tem quase quatrocentas. Roma é o berço da civilização ocidental e não somos chamados de Roma Negra à toa: somos a cidade com maior população negra fora da África. Se Florença é o berço do Renascimento, Salvador é o berço do Descobrimento.

Nesta singela carta, complemento a sua, e trago mais perguntas e insights. Por que não temos a rota das igrejas, se temos quase vinte delas concentradas num raio de 2 km? A rota dos castelos da Escócia ou da França seria a nossa rota dos fortes, do total de vinte que possuíamos, ainda restam dez deles espalhados pela cidade. Por que nossos três planos inclinados não são divulgados e o histórico e singelo Elevador do Taboão há décadas está abandonado? Por que quase não temos espaços livres, simples muretas, ao longo da Baía de Todos os Santos para apreciar o pôr do sol tomando uma cerveja? Por que o Porto de Salvador não é acessível aos soteropolitanos? Por qual motivo o turismo náutico da Cidade Baixa à Barra não é incentivado? O que falta para termos restaurantes e atrações flutuantes, ancorados em nosso porto? Por que não são valorizadas as poucas pedras portuguesas que nos restam?

Cadê grupos de walking tour desbravando os cantinhos mais surpreendentes e misteriosos do nosso Centro Histórico? Por que o rico Comércio, porta de entrada para quem chega de navio, principal via de irrigação de turistas para o Pelourinho não é valorizado? Por qual razão nossas igrejas, conventos e prédios históricos estão continuamente fechados, inclusive aos finais de semana? Por que um grande muro impede que a praça do Santo Antônio vire um imperdível belvedere com uma das melhores vistas da cidade? Por que tantos casarões, nosso maior atrativo e fator de desenvolvimento econômico com abertura de bares, antiquários, galerias, rooftops, etc, estão há décadas em ruínas? Por que não temos bondes interligando toda essa área? Quando teremos consciência que o Centro Histórico de Salvador só alcançará o máximo do seu potencial quando o Comércio, Taboão, Montanha, Conceição da Praia, Santo Antonio Além do Carmo e áreas adjacentes estiverem igualmente valorizadas e interligadas ao Pelourinho? E que são os baianos e, especialmente, os turistas que irão fazer de Salvador uma cidade cosmopolita e, verdadeiramente, famosa?

Nizan, meu querido, a cada dia, a cada viagem, confirmo que o melhor do mundo está aqui, na Cidade da Bahia. E ainda temos o que mais ninguém tem: uma música que estremece, sorrisos que enrubescem, calor humano e dendê correndo nas veias, coisas que ninguém explica, só sente. Volte sempre pra Bahia, Nizan, porque o bom filho à casa torna. Volte pra casa, Bahia, e faça lindamente o seu dever de casa!

Por Josevana Bitencourt/Diário de Salvador

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