Na minha pele

Na Minha Pele, uma autobiografia do ator baiano Lázaro Ramos

[…]

Quando eu tinha entre oito e dez anos, o Carnaval por vezes me assustava. Provavelmente porque eu ficava do lado de fora das cordas, no meio da pipoca. Mas também me trazia uma sensação de pertencimento, mesmo quando suas cordas e camarotes me diziam que aquela festa não era tão minha assim. Eu me encontrava na alegria e no entrosamento das pessoas que caminhavam pelas avenidas envoltas em mortalhas e confetes.

[…]

Aos doze anos fui levado por meu pai para o Campo Grande, na área central onde os blocos passavam. Lá, entre muito suor, cerveja, beijos e colares do Gandhy algo penetrou minha pele sem que eu notasse. Tímido, eu não me permitia dançar. […] Foi nesse dia que ouvi algumas das músicas que me fizeram ter um pouco mais de amor por mim mesmo.
O Ilê Aiyê passou e cantou:
Me diz que sou ridículo,
Nos teus olhos sou malvisto,
Diz até tenho má índole
Mas no fundo
Tu me achas bonito, lindo!
Ilê Aiyê

[…]

E bloco emendou com outra, no repicar dos tambores.
Não me pegue, não, não, não
Me deixe à vontade
Não me pegue, não, não, não
Me deixe à vontade
Deixe eu curtir o Ilê
O charme da Liberdade

As cores amarelo, vermelho, branco e preto das roupas, que fizeram meus olhos lacrimejarem, agora eram minhas cores também. Como a música dizia, já queria ficar à vontade. Outra cerveja para o meu pai, um pirocóptero pra mim, e eis que surge o cantor Gerônimo, puxando a plenos pulmões: “Eu sou negão!”
E a multidão respondia: “Meu coração é a liberdade!”
Eu gritei também: “Meu coração é a liberdade!”

Naquela época, apesar da autoestima que minha família nos deu, não gritávamos a plenos pulmões que éramos negros. Dizíamos “A gente, que é assim”. Eu sussurrei “Meu coração é a liberdade” várias vezes enquanto caminhava de volta para casa com meu pai.
Fiquei muito tempo sem voltar a sair no Carnaval, mas esses gritos de afirmação, que até então eu nunca tinha escutado, não saíram mais da minha cabeça.
Acionei o pirocóptero e voei com ele.
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Na Minha Pele é uma autobiografia de Lázaro Ramos em que ele narra com muita delicadeza e sensibilidade as dores do racismo, alegrias e marcos de sua infância, adolescência e vida adulta. Lindo e profundo! ♥️

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